quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Dia Mundial Sem Electricidade

O comum cidadão, entre os quais se compreende o condigno leitor, está focado e vive num estilo de vida que compreende um crescente numero de várias "superfulidades" às quais se vai habituando e que, logo após um curto período de usufruto, tornam-se indispensáveis para o dia-a-dia. Um exemplo cabal, é o telemóvel. Quando Gabriel era jovem, o uso desta geringonça, que a cada ano evolui e exige mais do utilizador, era inexistente. As pessoas pensavam e planeavam a agenda dentro de um horizonte temporal mais alargado que o imediato. Os primeiros aparelhos foram aparecendo e muito pouco uso tinham. Eram um luxo, eram um adereço supérfluo de moda. Hoje, sair de casa sem ele, corresponde a uma sensação de vazio que apenas encontra paralelo na hipótese de sair de casa sem roupa.

Gabriel, altruísta como ele só, despido de vaidade e abnegando do seu próprio conforto diário, ousou desafiar uma das mais básicas necessidades, para poder relatar e partilhar convosco a ímpar experiência, e, neste contexto, passou um dia (que é como quem diz umas horas que compreenderam e abarcaram a velha e conselheira noite) sem um dos mais preciosos dos confortos pouco dispensáveis: A Electricidade. Vestiu o fato de homem das cavernas e, no período compreendido entre as 19:00 do dia de ontem, até há hora que os senhores da EDP se dignem a restituir o serviço em causa, resolveu viver há "moda antiga".

Tendo previamente convidado uma amiga cujo nome não será revelado, mas que irá, carinhosamente, ser denominada eteronimamente de Josefa, e, não gostando de faltar aos seus compromissos, empreendeu a árdua empresa de organizar o melhor jantar do mundo, fazendo esquecer o mero pormenor da ausência de electricidade. A conclusão foi mais do que óbvia. A dita luz, não fez falta nenhuma. Aliás, se o tal propalado repasto, composto de bife à cervejeira,arroz basmati e espargos salteados, pudesse ter sido saboreado à luz de uma ordinária lâmpada, com certeza que no dia seguinte, não teria sido mais do que um jantar de terça-feira, e dificilmente teria motivos para ser recordado, ou até objecto deste escrito.

A tarefa de cozinhar à luz da vela, para além do espírito romântico, é um desafio a qualquer Master Chefe, e apenas se encontra ao alcance dos mais dotados. Gabriel, foi com toda a certeza capaz de superar-se a ele próprio, tais e tantos foram os elogios. A lareira da sala crepitava alegremente e, embora o frio exterior não se fizesse sentir, conferia ao ambiente um cariz familiarmente acolhedor, ajudando ainda a provir alguma da indispensável claridade. A televisão, outro vício moderno, continuava muda, não podendo reclamar para si o protagonismo a que por si só está tão habituada. A guitarra, deposta a um canto, parecia querer sair do lugar e pedia para ser tocada. Antes da sobremesa pré concebida, leram-se dois textos de Miguel Esteves Cardoso, a saber: o Almoço e o Piropo. Logo, homenageado este último, que MEC considera indispensável na cultura do homem português, fez-se uma pequena batota e trocou-se mais um piropo recorrendo há pouca bateria que o telemóvel dele ainda possuía.

O café viria a tomar-se no exterior, onde a vida fervilhava freneticamente, iluminada que era artificialmente, onde as capas negras dos estudantes do burgo, acenavam em cada nova esquina que ia sendo galgada, ao som da banda sonora da coscuvilhice e da gargalhada. No regresso a casa para uma noite dormida apressadamente, como que na ânsia do Café da Manhã, a luz eléctrica não fazia falta. Ou se calhar, os copos degustados entretanto assim o faziam pensar. A chave entrou na fechadura, e à memória veio a lembrança que momentos antes tinha ficado quase irremediavelmente esquecida no interior do apartamento que Gabriel partilha com o amigo Gustavo (heterónimo, claro). Para resolver tal celeuma, Gabriel havia recorrido à vizinha do lado e aos andaimes que se encontram no exterior do sétimo andar do prédio onde habita, que há muito lá se encontram, com o intuito de provir a base necessária para as demoradas obras. Um sorriso infantil e um tanto nada ébrio, formou-se lentamente e permaneceu por algum tempo nos lábios e na sua mente.

Boa noite... 
Pela manhã seguinte ele iria pagar o raio da conta em atraso com a taxa de urgência para que a comida do frigorífico não se estragasse.


                                                                                                                            Gabriel

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