terça-feira, 6 de outubro de 2015

Inverno

O Inverno é a antítese perfeita do conforto. Representa e simboliza, tudo aquilo pelo que o vosso subconsciente, para além do vosso "eu-físico", não gosta nem tão pouco se sente à vontade. Implica mais trabalho matinal, luta a dois tempos que não se pode ganhar contra o chuveiro, e um planeamento táctico na hora de sair de casa, em tudo semelhante à arte e estratégia das batalhas e guerras de outros tempos.

O frio e a clara necessidade de mais agasalhos, fazem qualquer um sentir-se como um autêntico enchido transmontano na hora de sair à rua (e então no que às mulheres toca, ainda pior). Como poderá uma qualquer Afrodite (justificando ou não tal adjectivação) justificar a tarefa e a clara razão de ser sexy, árduo trabalho que o Criador lhe imputou à nascença, disfarçada de salpicão de Montalegre? 

No Olimpo transmontano, o frio é mesmo de cortar à faca, e normalmente acompanhado de chuva. Já alguém imaginou, as diversas camadas de roupa com que as senhoras minimizam o tal arrefecimento, e ainda complementadas com um guarda-chuva, com vista a evitar a tão maçadora precipitação, que normalmente até é "tocada a vento", e que leva a que o uso de tão indispensável protecção, apenas consiga proteger a cabeça? É o mesmo que colocarmos uma sombrinha de gelado espetada num bucho de porco à moda da Beira Alta, na esperança que os convidas não a devorem e que fique um "bocadito" para deleite pessoal em horas de auto-solidão. Não é bonito de se ver.

Por outro lado, e nas terras denominadas altas (qualquer coisa definida como altitudes acima dos 600 metros, contadas a partir do nível médio das águas do mar), a precipitação assume vulgarmente a forma sólida da neve. A mulher genuinamente transmontana, quebra assim os laços da clássica e bem definida beleza herdada das deusas, para criar os seus próprios estereótipos. Surge então o clássico "buço" ou a tradicional verruga estratégico posicionada (por cima dos femininos lábios), que têm a definida missão e evitar o enregelamento desta porta da alma, pois é certo e sabido que, responsáveis pelo beijo (sobre teremos obrigatoriamente que reservar uma próxima publicação), os lábios não podem nem devem ficar enregelados... Os transmontanos gostam de beijar as suas damas e, as empresas dos batons de  cieiro, são coisa que por tais paragens já teriam falido. 

Gabriel não pensa assim... Ele ama o inverno e, aquando da sua chegada, abraça-o tal e qual o faz aquando das visitas das suas amadas  sobrinhas. Para ele, o desconforto sazonal que é completamente indesejado pelo comum mortal, é apenas e só, uma clara oportunidade de proporcionar ao corpo, um conforto tamanho como é impossível de o
fazer noutras estações. O que poderá ser melhor do que, um fim de tarde e início de noite, acompanhados de uma sopa quente e fumegante (canja ou caldo verde, com certeza), a lareira acesa a radiar de bem vindo calor e a chuva lá fora a fustigar o incauto edifício onde habita? Poderá o leitor, imaginar melhor cenário do que um clássico filme na televisão estatal, com um Rum envelhecido em casca de carvalho, no usado balão de cristal, com a habitual manta preta de "pelinho" a servir de casulo, e os gatos como companhia (Gabriel tem dois gatos, um deles, Meia-Noite, sua companhia fiel há mais de 5 anos, calmo mas muito rezingão, tal como o dono; e uma "menina", Âmbar, de cerca de 4 meses, traquina como ela só), enquanto lá fora, a trovoada assola a capital transmontana, derrubando sobre ela a fúria com que dantes partíamos para a guerra para "descascar" nos Mouros?

O Inverno, e a tradução habitual do desconforto implícito, não são mais do que uma plena e magnífica oportunidade para proporcionar prazeres infindáveis, de recorte muito mais pessoal e privado, a um corpo cansado de prazeres mundanos e noctívagos... Uma espécie de Sinfonia n.º 40 de Mozart, uma das únicas duas compostas em tons menores (tal e qual a natureza das necessidades de Gabriel, cada vez de grandeza menor, mas a traduzirem-se numa maior realização pessoal). Estará ele a "assentar"?  

Gabriel

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