quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Bom dia


Bom dia.


Bom dia o tanas! Tudo deverá ter regressado à normalidade na sua vida. Gabriel andava há vários dias a acordar bem disposto, como se o mundo lhe sorrisse, como se tudo lá fora fosse perfeito. Podia estar o maior temporal do mundo, que havia um motivo para sorrir ou para uma gargalhada. Uma criança, um animal, uma piada ou um simples "bom dia" proporcionava rasgados sorrisos. Finalmente acabou.

Hoje, o dia amanheceu solarengo, e da janela do seu quarto, a paisagem parecia primaveril. O sol pintava de tons dourados a aguarela quente que a vista da sua janela proporciona. Alguns pássaros chilreavam e a multidão deslocava-se com o habitual afoito para a labuta diária. Gabriel espreguiçou-se como habitualmente e... um estranho sentimento que já não era sentido há muito tempo... Que vão tudo e todos à fava!!! O mundo parece novamente normal. o azul e o dourado voltaram a ficar agradavelmente cinzentos. 

O dia continua e, ao comprar uma habitual e costumeira pulseira que dá acesso geral e indiscriminado a uma festa que dura cerca de uma semana (que acontece sempre nesta altura e começa já amanhã), a menina fez o troco com um prejuízo involuntário mas inimputável pessoalmente, de 10€. Gabriel sai, calma e pacatamente, só se apercebendo mais tarde (é assim pela manhã). Estava tudo reunido para ser um dia perfeito mas... não! A má disposição prevalece e, como habilmente acontecia dantes, lá para meio da tarde, deverá estar tudo normal. A meio do regresso ao trabalho, "plim"... Tinha ficado de dar boleia à amiga Josefa e esqueceu-se dela. Perfeito... Um dia perfeitamente normal à moda antiga.

Por mensagem, pediram a Gabriel para escrever sobre isto, "só porque sim". Cá está, ele espera que os estimados leitores gostem, ou não. Não importa. De tarde talvez haja uma opinião mais concreta.

Passem bem mal, no conforto de um dia normal,

Gabriel

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Inverno

O Inverno é a antítese perfeita do conforto. Representa e simboliza, tudo aquilo pelo que o vosso subconsciente, para além do vosso "eu-físico", não gosta nem tão pouco se sente à vontade. Implica mais trabalho matinal, luta a dois tempos que não se pode ganhar contra o chuveiro, e um planeamento táctico na hora de sair de casa, em tudo semelhante à arte e estratégia das batalhas e guerras de outros tempos.

O frio e a clara necessidade de mais agasalhos, fazem qualquer um sentir-se como um autêntico enchido transmontano na hora de sair à rua (e então no que às mulheres toca, ainda pior). Como poderá uma qualquer Afrodite (justificando ou não tal adjectivação) justificar a tarefa e a clara razão de ser sexy, árduo trabalho que o Criador lhe imputou à nascença, disfarçada de salpicão de Montalegre? 

No Olimpo transmontano, o frio é mesmo de cortar à faca, e normalmente acompanhado de chuva. Já alguém imaginou, as diversas camadas de roupa com que as senhoras minimizam o tal arrefecimento, e ainda complementadas com um guarda-chuva, com vista a evitar a tão maçadora precipitação, que normalmente até é "tocada a vento", e que leva a que o uso de tão indispensável protecção, apenas consiga proteger a cabeça? É o mesmo que colocarmos uma sombrinha de gelado espetada num bucho de porco à moda da Beira Alta, na esperança que os convidas não a devorem e que fique um "bocadito" para deleite pessoal em horas de auto-solidão. Não é bonito de se ver.

Por outro lado, e nas terras denominadas altas (qualquer coisa definida como altitudes acima dos 600 metros, contadas a partir do nível médio das águas do mar), a precipitação assume vulgarmente a forma sólida da neve. A mulher genuinamente transmontana, quebra assim os laços da clássica e bem definida beleza herdada das deusas, para criar os seus próprios estereótipos. Surge então o clássico "buço" ou a tradicional verruga estratégico posicionada (por cima dos femininos lábios), que têm a definida missão e evitar o enregelamento desta porta da alma, pois é certo e sabido que, responsáveis pelo beijo (sobre teremos obrigatoriamente que reservar uma próxima publicação), os lábios não podem nem devem ficar enregelados... Os transmontanos gostam de beijar as suas damas e, as empresas dos batons de  cieiro, são coisa que por tais paragens já teriam falido. 

Gabriel não pensa assim... Ele ama o inverno e, aquando da sua chegada, abraça-o tal e qual o faz aquando das visitas das suas amadas  sobrinhas. Para ele, o desconforto sazonal que é completamente indesejado pelo comum mortal, é apenas e só, uma clara oportunidade de proporcionar ao corpo, um conforto tamanho como é impossível de o
fazer noutras estações. O que poderá ser melhor do que, um fim de tarde e início de noite, acompanhados de uma sopa quente e fumegante (canja ou caldo verde, com certeza), a lareira acesa a radiar de bem vindo calor e a chuva lá fora a fustigar o incauto edifício onde habita? Poderá o leitor, imaginar melhor cenário do que um clássico filme na televisão estatal, com um Rum envelhecido em casca de carvalho, no usado balão de cristal, com a habitual manta preta de "pelinho" a servir de casulo, e os gatos como companhia (Gabriel tem dois gatos, um deles, Meia-Noite, sua companhia fiel há mais de 5 anos, calmo mas muito rezingão, tal como o dono; e uma "menina", Âmbar, de cerca de 4 meses, traquina como ela só), enquanto lá fora, a trovoada assola a capital transmontana, derrubando sobre ela a fúria com que dantes partíamos para a guerra para "descascar" nos Mouros?

O Inverno, e a tradução habitual do desconforto implícito, não são mais do que uma plena e magnífica oportunidade para proporcionar prazeres infindáveis, de recorte muito mais pessoal e privado, a um corpo cansado de prazeres mundanos e noctívagos... Uma espécie de Sinfonia n.º 40 de Mozart, uma das únicas duas compostas em tons menores (tal e qual a natureza das necessidades de Gabriel, cada vez de grandeza menor, mas a traduzirem-se numa maior realização pessoal). Estará ele a "assentar"?  

Gabriel

sábado, 3 de outubro de 2015

O Fala-Barato

O Fala-Barato, é uma espécie que abunda e reproduz-se assustadoramente por toda a Europa, e, particularmente neste nosso Portugal. Goza de uma implementação quase parasitária, taxas de crescimento exponenciais, chegando a colocar em risco o equilíbrio e balanço de certos ecossistemas. 

Mas afinal que espécie (ou sub-espécie) é esta, que terá causado espécie ao vosso autor para que ele se digne a fazer um post sobre ele? Efectivamente, ele não devia ficar alterado com semelhantes espécimes, mas é mais forte do ele próprio e, como tal, vai explorar e expor ao mundo, um pouco sobre este tema nas linhas que se seguem.

Fala-Barato, deverá derivar da junção das duas palavras: falar e barato. A partir daqui, entramos no domínio do experimentalismo... "Falar", por si só, é de fácil depreensão. Quando adjectivado de "barato" (antónimo de caro) também não será de difícil antevisão do conteúdo do sentido epistemológico da palavra resultante. Numa primeira fase, o fala-barato remeter-vos-à para uma clara antítese em relação ao laico da Roma Antiga. Sim, Gabriel aprecia séries e filmes sobre o assunto por, entre outros motivos, a linguagem cuidada usada pelos intervenientes. Logo depois, serão conduzidos para aqueles sujeitos que usam e abusam do calão, para falar sobre tudo e mais alguma coisa, dando a opinião de forma gratuita (talvez o "barato" venha daí) a quem a pede, ou não.  

Dentro do fala-barato, vários tipos se distinguem, embora ele não se vá se alongar muito sobre a distinção/classificação. A saber, o fala-barato zaragateiro (só sabe de falar em meter-se em confusões e andar à pancada com tudo e todos, embora na prática...); o fala-barato gabarolas (que conta tudo que tem e não tem, que faz e não faz, que disse e não disse); o fala-barato mulherengo (que conta a todos as moças com quem andou ou não) e ainda o fala-barato pirotécnico (que dispara para o ar em voz alta todo o tipo de disparates hediondos para que as pessoas se riam do que ele diz, sendo que para isso sejam necessárias duas condições: falar em voz alta com riso grosseiro à mistura e não ter o mínimo sentido naquilo que se diz).

Recentemente, estudos comprovam que, a evolução animal deu origem a uma espécie mutante deste "bicho", um híbrido ainda não baptizado (mas que provavelmente terá nome de felídio, dado que o primeiro espécime descoberto, gosta de ser assim alcunhado), que resulta do cruzamento de todas as espécies anteriores. Um fala-barato de proporções gigantescas e assustadoras que, se mete em confusões, é gabarolas, pensa ser mulherengo e é especialista em arraiais de fogo de artifício, cuja grandeza pode ombrear com as passagens de anos na Madeira (aquelas que o antigo Presidente do Governo Regional armava).

Sendo o fala-barato um sub-espécime humano, ao contrário de todos os restantes seres vivos, não é necessário para nada, não contribui para a harmonia do ecossistema, e nada está dependente da sua existência. Muito pelo contrário... Causa desequilíbrios na estabilidade emocional e no pensamento dos indivíduos que pertencem às castas sociais onde ele, à semelhança de qualquer ser parasitário (mas sem a importância comprovada que estes assumem) se imiscuem de forma gratuita mas não consentida. São uma espécie de rémora social, embora no outro dia um desses fala-baratos apostava com Gabriel que o nome correcto desse animal era anémona. Pasme-se caro leitor... 

Enfim, não se antevê qualquer luz ao fundo do túnel, no que a uma solução se possa encontrar para esta problemática. Até os Partidos Políticos, que habitualmente têm solução para tudo, tão pouco se atreveram a colocar propostas ou a disponibilizar recursos do dietético Orçamento de Estado, para uma resolução deste paradigma social. Nada se pode ler nos seus planos eleitorais, pois é antevista a celeuma que tal caso implica...

Eles estão no meio de vós, tal e qual os vampiros no imaginário de qualquer pessoa, mas sem o charme e a graça que estes têm...


Gabriel